A direção nacional do PSOL decidiu que vai se manter na base do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas que não terá cargos e ministérios. Na resolução, a legenda afirma que “respeita” a possível indicação de Sonia Guajajara ao Ministério dos Povos Originários, a ser criado pelo governo, mas impõe licença de cargos de direção àqueles que aceitarem pastas. A votação foi de 53 votos contra 6 contrários.
“O PSOL lutará para derrotar o bolsonarismo na raiz: ideológica e politicamente, nos parlamentos e principalmente nas ruas. Não podemos subestimar a extrema-direita e o PSOL deve ser linha de frente da luta contra ela”, diz o texto da resolução.
“Conseguimos ajustar as diferenças internas no PSOL e reafirmar nosso apoio ao governo Lula para reconstruir o Brasil. Ao mesmo tempo, manteremos nossa essência combativa em defesa das políticas de justiça social, ajudando o novo presidente a entregar um país melhor para todos daqui quatro anos”, afirma o presidente do partido, Juliano Medeiros.
Entre os pontos tidos como “urgentes” pelo partido, estão o fim do teto de gastos, um “intenso revogaço da agenda neoliberal conservadora” e o fim do orçamento secreto. Sobre este último item, o PSOL divergiu do PT nesta semana quando votou contra a manutenção do orçamento secreto, com alterações e descentralização do controle das emendas de relator.
Erros graves
O PSOL menciona, na resolução, que deve se colocar contra “erros graves”, como “incluir líderes da extrema-direita na coalizão do governo ou fazer acordos para ‘deixar passar’ os delitos inconstitucionais cometidos pelos bolsonaristas, fortalecendo uma perspectiva conservadora de governabilidade”.
Na resolução, a legenda afirma que sua negociação será por propostas, não por espaço no governo. “O PSOL apoiará o governo Lula em todas as suas ações de recuperação dos direitos sociais e de interesses populares. Estaremos presentes nas trincheiras do parlamento e nas lutas do povo brasileiro, combatendo a extrema-direita e defendendo o governo democraticamente eleito, mas o PSOL não terá cargos na gestão que se inicia”.
A reunião aconteceu em um hotel na Avenida República, no centro de São Paulo, e reuniu nomes como o ex-deputado federal Chico Alencar. Como não faz parte do Diretório Nacional, Guilherme Boulos não compareceu, apesar de ser parte interessada nesta votação, por já ter sido especulado para integrar o governo. Pela manhã, psolistas fizeram apenas um balanço sobre as eleições de 2022.
Pouca resistência
A deliberação sobre a permanência na base do governo enfrentou pouca resistência. A maior grita veio da corrente socialista das trabalhadoras e dos trabalhadores, que tem como um de seus representantes o ex-deputado João Batista Oliveira de Araújo, conhecido como Babá, um dos fundadores da legenda, expulso do PT em 2003. O grupo já havia pedido o afastamento de Medeiros durante as eleições.
“O partido que fundamos em 2004 era de total independência de governos, seja com Cabral no Rio, ou com Lula nacionalmente. Agora, mais ainda, com essa aliança que Lula está fazendo com o presidente da Câmara, Arthur Lira”, disse Babá, que criticou alianças de Lula com a direita e chegou a propor na reunião que o partido beirasse à oposição ao PT nos próximos quatro anos. A proposta não foi aprovada.
Valeu mesmo a vontade da cúpula do partido e de seus integrantes de maior projeção nacional. Hoje, afinal, a legenda trabalha com a possibilidade de ter dois ministérios, com Boulos nas Cidades e Sonia Guajajara na pasta dos Povos Originários, cuja criação foi promessa de Lula durante a campanha.