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'Caminhoneiros são reféns de grupos bolsonaristas armados', diz entidade do setor

Apoiadores de Jair Bolsonaro em protesto na rodovia BR-251

Publicada em 01/11/2022 as 16:24h por www.bbc.com
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 (Foto: Diego Vara/Reuters)

Uma entidade que representa caminhoneiros divulgou nota nesta terça-feira (1°) negando que a categoria esteja apoiando os bloqueios de rodovias em protesto contra a derrota do presidente Jair Bolsonaro na eleição de domingo (30). Em nota, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL) disse que "caminhoneiros são reféns de grupos bolsonaristas armados".

 

"A Confederação reforça, mais uma vez, que não existe paralisação de caminhoneiros. Quem está desrespeitando a lei e impedindo o direito de ir e vir dos cidadãos e o trabalho dos caminhoneiros são grupos armados que não aceitam o resultado democrático e soberano das urnas. Esses grupos defendem a intervenção militar e volta da ditadura, pautas antidemocráticas que ferem à nossa Constituição, o direito de expressão e a liberdade individual", diz a entidade que representa motoristas de caminhão.

 

Você está preso por conta dos bloqueios em vias e estradas após a votação de domingo? Mande seu relato e fotos e vídeos que você tenha feito para a reportagem da BBC News Brasil

"Os caminhoneiros estão sendo reféns e vítimas desses grupos, que estão armados, fazem ameaças e os impedem de falar com a imprensa. Isso é extremamente grave!" A confederação diz ainda que os bloqueios são "criminosos" e colocam vidas em risco.

 

"Essa ação irresponsável e criminosa desses grupos bolsonaristas armados colocam em risco a vida dos caminhoneiros, a saúde da população, que não conseguem acessar os hospitais, provoca desabastecimento e cerceiam o direito de ir e vir, que é assegurado na nossa Constituição.

 

"Os caminhoneiros autônomos e celetistas estão sendo penalizados por esses grupos políticos armados e agressivos que defendem interesses partidários e não representam trabalhadores e não respeitam os cidadãos." A CNTTL também defende, no comunicado, a prisão dos que estão participando das interdições de pistas.

 

"É o momento das autoridades agirem com rigor no cumprimento do comando constitucional e efetivar a prisão em flagrante de todos que estão nesse momento tentando subverter a ordem do Estado Democrático."

 

Pouco tempo após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ser confirmada no segundo turno das eleições presidenciais contra Jair Bolsonaro (PL), grupos de caminhoneiros bolsonaristas e outros apoiadores do atual presidente começaram a fechar rodovias.

 

Até a manhã desta terça, de acordo com a PRF (Polícia Rodoviária Federal), havia bloqueios parciais ou totais mais de 3Estados (incluindo o Distrito Federal) — os únicos onde não havia registros de ocorrências eram Alagoas e Amapá. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a PRF desbloqueie as rodovias. Pela decisão de Moraes, em caso de descumprimento, deve ser aplicada multa de R$ 100 mil por hora, suspensão e prisão em flagrante do diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques.

 

Moraes também permitiu que policiais militares atuem para desmobilizar os grupos que estão paralisando as rodovias.

 

Em entrevista coletiva realizada nesta terça-feira, diretores da PRF negaram que o órgão teria sido omisso em relação às manifestações.

 

"Em momento algum [...] a polícia rodoviária se omitiu. (Houve) determinação do ministro da Justiça (Anderson Torres) e do nosso diretor-geral (da PRF, Silvinei Marques) para atuar desde o primeiro instante. Esta foi a orientação e é isto que estamos executando", disse o diretor de operações da PRF, Djairlon Henrique Moura, durante entrevista coletiva realizada nesta terça-feira.

 

O corregedor-geral da PRF, Wendel Matos, disse que o órgão já identificou pelo menos três agentes que, segundo vídeos que circulam em redes sociais, teriam sido coniventes com os manifestantes. Os casos teriam ocorrido nos estados de São Paulo e Santa Catarina.

 

Segundo Matos, a PRF já teria aberto processos administrativos para apurar a conduta dos agentes.

 

"A PRF não apoia a ilegalidade, a atuação ilegal ou fechamento de rodovias federais. Os casos que têm aparecido na internet já foram identificados. A corregedoria-geral do órgão já instaurou um procedimento para apurar esses casos", disse Matos.

 

O corregedor-geral disse, no entanto, que os agentes identificados ainda não foram afastados de suas funções porque, neste momento, a PRF precisaria de todo o efetivo possível.

 

"Foram identificados, mas não foram afastados. As chefias foram orientadas a identificar o que aconteceu e estão sendo orientadas como proceder. Não há como afastar, precisamos do efetivo da força nesse momento", afirmou o corregedor-geral.

 

Ainda na coletiva, o diretor de inteligência da PRF, Luís Carlos Reischak Júnior, disse que o órgão não teria tido elementos para dimensionar a dimensão das manifestações.

 

"O fato é que a crise escalou muito rápido. Às 23h30 do dia 30, nós tínhamos 27 pontos (de bloqueio). À 0h, havia 37 pontos. À 1h da manhã, havia 111 pontos. Não tínhamos nenhum elemento de que a crise iria ter essa envergadura. Se tivéssemos a certeza mais elevada, nós assessoraríamos nossos gestores para que a gente mobilizasse os recursos", afirmou.

 

Janderson Maçanero, caminhoneiro de Itajaí (SC) conhecido como Patrola, que faz parte dos protestos atuais, diz que, na sua cidade, a movimentação é composta apenas por 20% de caminhoneiros, e o restante dos manifestantes são cidadãos de diferentes profissões.

 

O cenário, com o propósito de não aceitar um novo presidente, é diferente de outros que o caminhoneiro participou, como em 2014, uma paralisação feita para reivindicar queda nos preços de combustíveis, e em 2019, pela contratação direta de caminhoneiros sem terceiros que intermediassem valores.

 

Ele afirma também que os protestos não têm liderança direta ou reivindicação específica — alguns, por exemplo, defendem um golpe de Estado conduzido pelos militares, que ele diz não ser o seu caso — mas todos têm, em comum, a rejeição a Lula e a não aceitação da vitória do petista nas eleições.

 

"É o posicionamento do presidente que determinará rumo dos protestos e o posicionamento da categoria. Estamos esperando ele falar. Ou Bolsonaro vai à guerra, ou ele se extinguirá do cenário político, porque aí ele não é o líder que pensávamos."

 

Patrola afirma que "ir à guerra", para ele, é não aceitar o resultado, mas não descreve exatamente como isso poderia se desenrolar, já que ele próprio diz não apoiar um golpe militar. Ele diz aguardar que o presidente anuncie a solução.

 

A aceitação dos resultados por parte de Bolsonaro, complementa, seria uma decepção para ele e para muitos de seus colegas.

 

Sobre quanto tempo a paralisação poderia durar, ele diz que "tempo é relativo" para os caminhoneiros. "Aqui estamos em casa. Nosso caminhão tem onde comer, onde dormir… Esse é o nosso cotidiano."

 

'Acredito que a categoria não terá dificuldade em negociar com o governo Lula'

 

Wanderlei Dedeco, caminhoneiro de Curitiba, Paraná, que atua como "conselheiro" das lideranças dos caminhoneiros, segundo sua própria descrição, se diz contra as paralisações e afirma que até o começo do dia, não acreditava que os protestos durariam por muito tempo, mas já passou a ver o cenário com "outros olhos".

 

"As manifestações estão crescendo rapidamente, e não tem uma intervenção imediata da PRF como houve em outras ocasiões. Além disso, a demora de Bolsonaro para se pronunciar pode contribuir para que os protestos se alastrem."

 

"Os protestos estão sendo feitos por caminhoneiros revoltados, que não aceitam perder, e por empresários - nos locais você só vê 'carrões' - que acreditam que vão perder algo com o governo Lula. Mas a democracia marcou presença ontem, é assim que funciona o jogo."

 

Apesar dos protestos, há representantes dos caminhoneiros que acreditam haver possibilidade de diálogo com o governo Lula

 

Dedeco foi uma das lideranças da greve de caminhoneiros de 2018, e diferentemente dos caminheiros ativos nos protestos, apoiou Lula no segundo turno das eleições.

 

"Já fui um crítico do PT e do Lula, acreditei na Lava-Jato. Mas se o STF não o condenou, quem sou eu para fazer isso? Eu votei no Lula e agora quero ver ele governar. Se ele fizer algo errado, pode ter certeza que eu vou criticar, diferentemente dos bolsonaristas que ficaram 'endeusando' Bolsonaro e aceitavam tudo de errado que ele fazia."

 

Na opinião dele, os caminhoneiros tendem a ser beneficiados com a eleição de Lula. "Com o governo Bolsonaro não havia condições para sentar e negociar. Já o governo de Lula sempre foi mais democrático, aberto a ouvir o que estava bom e o que não estava. Acredito que a categoria não terá dificuldade em negociar com o governo Lula", diz.

 

- Este conteúdo foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-6346001




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